MADEIRADiG volta em 2019

04.01.2019


Ana da Silva & Phew | MADEIRADiG 2018 | © Micas Fernandes

Objectivos alcançados, expectativas excedidas e um enorme sentimento de satisfação e de dever cumprido: é desta forma que a APCA classifica a edição do festival internacional de música electrónica e experimental MADEIRADiG de 2018 que ocorreu entre a Calheta e a Ponta do Sol entre os passados dias 30 de Novembro e 03 de Dezembro.

A comemorar a 15ª edição, o mais antigo festival do género a realizar-se em Portugal sem interrupções desde 2004 assinalou a data com uma exposição de fotografia alusiva a alguns dos momentos mais marcantes do certame ao longo de 14 edições, com a participação de diversos fotógrafos entre os quais Rui Camacho, Roland Owsnitzki, Dominique Steiner ou Miguel Jardim, entre outros, num total de 8 fotógrafos sob cujo olhar ficaram registados diversos momentos memoráveis do festival que já contou no seu alinhamento com nomes como Ben Frost, The Necks, Rhys Chatham, Supersilent, Alva Noto, Tony Conrad, Peter Broderick, entre muitos outros que ao longo de 15 anos têm trazido à Costa Oeste da Madeira a excelência do género a nível mundial. Em 2019, pretende a organização editar uma obra editorial com este material, incluindo os registos de 2018 que estiveram a cargo da fotógrafa madeirense especializada em fotografia de espectáculo Micas Fernandes.

Mas não só por aqui se ficam as especificidades da edição que terminou na passada semana: havendo sido abertas pela primeira vez às Regiões Autónomas as candidaturas aos programas de apoio da Direcção Geral das Artes, o MADEIRADiG foi um dos projectos contemplados no programa de apoio à programação e desenvolvimento de públicos, obtendo uma classificação de 86,1% e um financiamento de 40 000,00 Euros. Para a organização, a atribuição deste apoio veio ajudar a colmatar o investimento realizado ao longo de 15 edições e é visto como um prémio que promove o incentivo para continuar com um projecto que é dos poucos com impacto no segmento do Turismo Cultural de características descentralizadas na Região Autónoma da Madeira, sendo que o festival, que já atingiu notoriedade a nível internacional, tem no público estrangeiro predominantemente oriundo de diversos países da Europa, cerca de 80% da sua audiência contribuindo para a disseminação da Ilha da Madeira como destino cultural e criativo. Por tudo isto, a organização promete que o MADEIRADiG estará de volta, uma vez mais, no início de Dezembro de 2019.

Ainda de salientar que a edição de 2018 foi a mais feminina de sempre do festival, com a participação de 11 artistas femininas contra 9 masculinos, sendo que 50% dos concertos no palco do MUDAS esteve a cargo de mulheres, apenas um dos três live acts ocorridos na Estalagem da Ponta do Sol foi masculino e no que toca aos DJ’s das habituais festas after show que ocorrem em todos os dias do evento, a predominância feminina foi mesmo de 100%. Para a organização, apesar de não haver procurado preencher este requisito de forma intencional, este é um aspecto importante pois mostra que o movimento de vanguarda não é só apenas berço de novas estéticas e correntes artísticas nas suas diversas expressões, mas que este é também foco de abertura, liberdade e equidade fazendo uso da Arte como linguagem universal transversal a qualquer barreira ou preconceito de género ou proveniência.

A afluência do público registou casa cheia em todos os dias do festival - a programação da edição de 2018, arrojada e abrangente, pretende, além dos elevados padrões de qualidade e originalidade do alinhamento, poder chegar ao diálogo com cada um dos presentes no público através da convocação de diversos géneros dentro da electrónica e electro-acústica experimental: do noise de Rui P Andrade & Aires ao industrial dos Damien Dubrovnik; da ambient criada em Island da Ana da Silva e da Phew ao neo-clássico convocado por Resina e Jessica Moss, passando pelo folk de Eric Chenaux e pela poderosa spoken word de Maja Osojnik; é possível perceber as diferentes reacções na audiência e ouvir nos intervalos dos concertos as diversas impressões trocadas, fomentando o debate em torno de temas conceptuais referentes aos espectáculos visionados, mas também nas suas especificidades técnicas, quer musicais quer relativas a materiais e equipamentos utilizados.

Como momentos altos dos concertos de 2018 destaque para a actuação da eslovena radicada em Viena, Maja Osojnik e de Baby Dee, multi instrumentista norte-americana, que deu um dos últimos concertos da carreira. Destaque ainda para o facto de que a programação deste ano incluiu a presença de três madeirenses que representam um fechar de ciclo de duas diferentes gerações com provas dadas na criação musical. São eles Ana da Silva e a dupla Rui P Andrade & Aires - ela fundadora da mais importante banda pós punk feminina nos anos 70, as The Raincoats, que apresentou com a consagrada japonesa Phew o novo trabalho: Island (vivendo ambas em ilhas ainda que em diferentes partes do globo, vieram a esta Ilha apresentar a sua ilha, num sem fim de significâncias subtis e emotivas na primeira vez em que tocou experimental em casa), eles - dois jovens que têm dado que falar na imprensa internacional especializada da área, fundaram há alguns anos o colectivo de colaboração artística Coletivo Casa Amarela e têm participado em eventos e festivais em Portugal e no estrangeiro.

No leque de madeirenses que já se apresentaram nas actividades do MADEIRADiG incluem-se Hugo Olim (video art), Jerome Faria (video e sound art) e Celso Caires, Carlos Valente e Vítor Magalhães (artes plásticas).

Para a organização, o facto de em 15 edições se haver registado uma significativa presença de artistas regionais é a prova de que a Madeira é terra fértil no que concerne ao surgimento de artistas em diversas expressões e que eventos como o MADEIRADiG são fundamentais para a proliferação do conhecimento da Arte e de uma consciência artística e estética no seio social regional.

© 2016 APCA - Madeira